Cantora e violonistas apresentam no Rio de Janeiro um roteiro pautado por músicas pouco conhecidas pelo público.

É curioso que Mônica Salmaso e Quarteto Maogani tenham esperado 24 anos para fazer, juntos, um show como o apresentado na noite de sexta-feira, 29 de novembro, no Teatro Rival, no Rio de Janeiro (RJ), cidade natal do grupo de violonistas.

Embora Salmaso tenha entrado em cena pelo teatro há exatos 30 anos, cantando na peça O concílio do amor (1989) sob direção do então iniciante encenador Gabriel Villela, a artista paulistana considera 1995 como o ano inicial da carreira.

É que, nesse ano, Salmaso gravou o primeiro álbum, Afro-sambas, em duo com o violonista Paulo Bellinati.

Curiosamente, nesse mesmo ano de 1995, entrou em cena o Maogani, quarteto de violões criado pelos músicos Carlos Chaves, Marcos Alves, Paulo Aragão e Sergio Valdeos (substituído na atual formação por Maurício Marques) – colegas de curso de violão de escola de música de universidade carioca – com o intuito de aliar o estudo do violão clássico à paixão pela música popular do Brasil.

Cantora extraordinária, pautada tanto pelo formalismo da técnica vocal quanto pela precisão das interpretações, Salmaso teve o caminho profissional cruzado pontualmente com o do Maogani em eventuais gravações em disco e encontros em shows.

Mas foram precisos 24 anos de fina sintonia para que cantora e músicos ampliassem a conexão no show Mônica Salmaso & Quarteto Maogani, reiterando a sensação de "identidade total" mencionada por Salmaso no palco do Teatro Rival.

Mônica Salmaso concentra atenções em show com o Quarteto Maogani no Rio de Janeiro Mauro Ferreira / G1 Em cena, por mais que o Maogani tenha aberto a apresentação com o toque do choro Caçador de borboletas (Radamés Gnattali, 1947) em número solo instrumental, foi inevitável que, ao longo do show, o quarteto tenha soado mais como luxuoso acompanhante da cantora.

Até porque Salmaso é do tipo de cantora que monopoliza atenções quando solta a voz, seja no clima bucólico de Chovendo na roseira (Antonio Carlos Jobim, 1973), no matiz quase sacro da Ave Maria (1926) do compositor paulista Erothides de Campos (1896 – 1945) ou no tom buliçoso do Forrobodó (2001), tema pouco conhecido da parceria de Edu Lobo com Chico Buarque, tendo sido composto para a trilha sonora do filme O Xangô de Baker Street (2001).

Da obra de Chico com Edu, Salmaso e Maogani também atualizaram Bancarrota blues (1985) em roteiro de alto nível e pouca empatia por concentrar músicas pouco conhecidas do público, caso do Frevo de Itamaracá (Edu Lobo, 1970), cujo passo Salmaso acompanhou sem perder o fôlego.

Esse roteiro incorporou músicas do repertório do mais recente disco do Maogani, Álbum da Califórnia, gravado em 2009 em Los Angeles (EUA), com produção de Sergio Mendes, e editado dez anos depois, em fevereiro deste ano de 2019, com a participação de Salmaso na já mencionada música Chovendo na roseira.

Do disco, foram extraídas composições como Frevo rasgado (Gilberto Gil e Bruno Ferreira, 1968), cantado por Salmaso com vocalizes, com a mesma segurança com que inseriu pertinentes floreios vocais no medley que agregou I got rhythm (George Gershwin e Ira Gershwin, 1930) e Surfboard (Antonio Carlos Jobim, 1967).

Em Easy to love (Cole Porter, 1936), outra música extraída do repertório do Álbum da Califórnia, a cantora mostrou que sabe seguir o trilho requintado da canção norte-americana.

Mas foi em bom português que Salmaso embeveceu o público ao realçar o jogo de palavras francesas armado na letra de Cabrochinha (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 1997), ao transitar por Estrada do sertão (João Pernambuco com letra de Hermínio Bello de Carvalho, 1985) – em registro emotivo que ecoou primorosa gravação feita por Elba Ramalho em 1995 com arranjo de violões – e ao cair com graça no samba Baile no Bola (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 2004). Escorada nos arranjos e no toque de violões do Maogani, Mônica Salmaso mostrou realmente ter "identidade total" com o quarteto em show sofisticado que merece continuar em cena.

(Cotação: * * * *) Mônica Salmaso e Quarteto Maogani encadeiam 17 músicas no roteiro do show Mauro Ferreira / G1 ♪ Eis o roteiro seguido em 29 de novembro de 2019 por Mônica Salmaso e o Quarteto Maogani no show apresentado no Teatro Rival, na cidade do Rio de Janeiro (RJ): 1.

Caçador de borboletas (Radamés Gnattali, 1947) 2.

Retiro (Paulinho da Viola, 1983) 3.

Ave Maria (Erothides de Campos, 1926) 4.

Forrobodó (Edu Lobo e Chico Buarque, 2001) 5.

Nem mais um pio (Guinga e Sérgio Natureza, 2001) 6.

Cabrochinha (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 1997) 7.

Chovendo na roseira (Antonio Carlos Jobim, 1973) 8.

Leilão (Hekel Tavares e Joracy Camargo, 1933) 9.

Bancarrota blues (Edu Lobo e Chico Buarque, 1985) 10.

I got rhythm (George Gershwin e Ira Gershwin, 1930) / 11.

Surfboard (Antonio Carlos Jobim, 1967) 12.

Easy to love (Cole Porter, 1936) 13.

Frevo de Itamaracá (Edu Lobo, 1970) 14.

Estrada do sertão (João Pernambuco com Hermínio Bello de Carvalho, 1985) 15.

Baile no Bola (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 2004) 16.

Frevo rasgado (Gilberto Gil e Bruno Ferreira, 1968) Bis: 17.

Fonte abandonada (Guinga e Paulo César Pinheiro, 2003) 18.

Cabrochinha (Maurício Carrilho e Paulo César Pinheiro, 1997)