Livro desfaz mitos e analisa líderes populistas de direita e de esquerda.

Capa de 'Populismo – Uma breve introdução', de Simon Tormey Divulgação O populismo não é um fenômeno novo, muito menos no Brasil, mas nos últimos anos o termo vem aparecendo com frequência crescente na mídia e no debate político, na esteira da ascensão de Donald Trump, Jair Bolsonaro e outras lideranças, em variados pontos do planeta.

Como "fascismo", "populismo" é uma palavra cujo significado original foi esvaziado pelo mau uso recorrente, hoje servindo basicamente, no mais das vezes, para desqualificar adversários, de forma que a leitura de "Populismo – Uma breve introdução", de Simon Tormey (Cultrix, 232 pgs.

R$ 46), é recomendável, no mínimo, como uma proposta de sistematização bastante contemporânea do conhecimento sobre o tema. Professor de Ciências Sociais e Políticas na Universidade de Sydney e também autor de alguns ensaios polêmicos, como "Anti-Capitalism – A beginner’s guide" e "The end of representative democracy", Tormey se esforça para parecer isento na caracterização e na delimitação do seu objeto.

Sobretudo na primeira metade do livro, ele esclarece de forma convincente diferentes aspectos conceituais e históricos do fenômeno populista, além de fazer remissão a movimentos muito recentes, como aqueles que resultaram na criação do Podemos, na Espanha, e do Syriza, na Grécia. Sua análise do movimento dos narodniks russos, dos partidos de agricultores nos Estados Unidos e do caudilhismo latino-americano também é bastante pertinente, por mostrar como processos muito diferentes de organização da política podem apresentar, como elemento comum, o apelo simplista, emocional em maniqueísta ao "povo", essa entidade abstrata e falsamente homogênea em nome da qual tantos crimes já foram cometidos. Alguns líderes populistas merecem destaque especial no livro, como Rodrigo Duterte, das Filipinas, Viktor Orbán, da Hungria e Marine Le Pen, da França.

O autor também investiga as motivações do eleitorado europeu ao apostar em lideranças de direita ou centro-direita que não se enquadram no sistema convencional da política partidária: medo dos imigrantes, medo dos refugiados e medo da islamização do continente. É preciso sublinhar que não são pessoas más que sentem esses medos: são indivíduos comuns, nem de esquerda nem de direita, que sentem na pele o impacto das mudanças sociais e econômicas e querem que algo seja feito.

Um dos méritos do autor é, justamente, evitar cair na armadilha de identificar o populismo com a direita, reconhecendo que existem programas, partidos e lideranças de esquerda que, para explorar a apreensão do eleitor comum, apostaram e continuam apostando no populismo, isto é, na divisão da sociedade entre o "povo" e as "elites". Uma consequência inevitável da afirmação de uma fictícia unidade do "povo" é a identificação de qualquer oposição com os interesses das elites: toda e qualquer diferença de pensamento e apresentada como contrária aos interesses da maioria da população.

Daí a divisão da sociedade entre "nós" e "eles" – divisão que contamina e envenena a sociedade brasileira há quase duas décadas, diga-se de passagem. Mais que uma ideologia, portanto, o populismo é uma estratégia, que pode ser adotada tanto pela direita quanto pela esquerda.

Essa estratégia consiste basicamente em: estruturar a política em termos de confronto e antagonismo entre o povo (o bem) e as elites (o mal); oferecer uma visão redentora e simplista dos problemas da nação; apostar em uma liderança carismática, cujo laço com a sociedade é mais emocional que racional; transformar adversários em inimigos, com manifesta intolerância à diferença de opinião; recorrer a um discurso simples e direto, com uma linguagem clara e, frequentemente, rude, como forma de estabelecer uma relação direta com o "povão"; explorar sentimentos negativos como o ódio que nasce da insatisfação das pessoas comuns, aí incluído o "ódio do bem", tão praticado pela chamada esquerda no Brasil; rejeitar o establishment político e os partidos convencionais por sua incapacidade de resolver uma determinada crise. Crises são, aliás, um terreno fértil para o crescimento do populismo, porque, como alternativa heterodoxa, programas populistas dependem do descontentamento da população, da percepção de que sua segurança e sua identidade estão em risco.

Nesse sentido, Tormey está certo quando escreve que o populismo é um efeito da crise, não sua causa: "A instabilidade política leva ao colapso social, que leva à demanda por um líder forte, para arrumar a casa", escreve. A segunda metade do livro é bem menos interessante, oscilando entre a reiteração de algumas teses e a mal disfarçada adesão ao pensamento do teórico argentino de esquerda Ernesto Laclau – que defende, em livros como "A razão populista" o populismo como ferramenta para se chegar ao (ou conservar o) poder, o que não chega a surpreender no contexto da política latino-americana das últimas duas décadas.

A simpatia pelo pensamento de Laclau faz o autor cair em evidente contradição, comprometendo a isenção aparente da primeira metade do livro.