Dois propulsores do comportamento aprendiz são a curiosidade natural e o desejo por uma recompensa; veja como cada um deles age - e quando eles têm ou não efeito positivo.

Crianças pequenas têm curiosidade natural pelo funcionamento das coisas, é a chamada motivação intrínseca Stephen Andrews / Unsplash Conseguir que as crianças estudem pelo prazer de aprender, em vez de pela expectativa de uma nota 10 ou medo da nota zero.

Parece um sonho? Talvez não. Já em seus primeiros anos, as crianças são naturalmente interessadas em explorar seu ambiente — desde examinar a grama do jardim até brincar com um cachorro — e em querer saber como as coisas funcionam, seu sabor e as sensações que elas provocam.

Segundo especialistas, é só mais tarde que elas conseguem aprender a fazer algo (como se sentarem quietas à mesa do jantar) para obter um prêmio ou evitar um castigo. Esses dois propulsores de comportamento são conhecidos como motivação intrínseca (movida pela curiosidade natural) e motivação extrínseca (movida pela recompensa). Mas qual delas é melhor para o aprendizado infantil — e como podemos estimular o prazer de aprender sem depender de recompensas? O valor da curiosidade natural "A motivação intrínseca começa muito cedo.

As crianças são proativas e curiosas por natureza", diz à BBC o professor Frédéric Guay, especialista em motivação na Universidade Laval, em Québec, no Canadá.

"Educadores do sistema escolar precisam nutrir essa motivação." Guay e seus colegas conduziram uma meta-análise (que está prestes a ser publicada) sobre motivação intrínseca e desempenho estudantil desde a educação primária até a universitária.

Eles analisaram 344 estudos e uma amostra de mais de 200 mil crianças.

Os estudantes analisados completaram um questionário que media diferentes tipos de motivação, e suas notas foram compiladas.

Os pesquisadores descobriram que estudantes que obtinham mais prazer em estudar determinadas matérias tinham também desempenho melhor, além de serem mais persistentes e criativos nesses conteúdos. Estudantes que obtinham mais prazer em estudar determinadas matérias tinham também desempenho melhor, além de serem mais persistentes e criativos nesses conteúdos, diz pesquisa canadense NeONBRAND/Unsplash Mais pesquisas confirmam a ideia de que crianças intrinsecamente motivadas aprendem melhor.

Um estudo alemão descobriu que estudantes entre 7 e 9 anos de idade que se sentiam imersos nas histórias que liam apresentavam um nível de compreensão de leitura maior em relação aos estudantes que eram motivados apenas por competir com os demais. Outro estudo, também da Alemanha, descobriu uma relação recíproca entre motivação intrínseca para ler e o desempenho em leitura entre estudantes de 8 a 10 anos, mas não encontraram a mesma relação quando a motivação era extrínseca.

E os benefícios da motivação intrínseca sobre o desempenho não estão limitados às crianças.

Um estudo que examinou as motivações de cadetes na academia militar americana de West Point identificou que os que eram motivados puramente de modo intrínseco tinham mais probabilidade de ascender na carreira, trabalhar por mais tempo e serem selecionados para promoções profissionais do que os que tinham motivação extrínseca. Por que então motivamos as crianças com recompensas? A despeito dessas evidências sobre a importância em estimular a motivação intrínseca, a cultura da recompensa se embrenha desde cedo nas salas de aula.

As crianças recebem estrelinhas para estimular seu bom comportamento e boletins para avaliar seu desempenho. Uma pesquisa que analisou o uso de recompensas por professores, desde o jardim da infância até a 5ª série, descobriu, por exemplo, que todos os professores do estudo usavam elogios como recompensas.

Quase 80% deles também usaram semanalmente recompensas tangíveis, como vales-prêmios.

Outras formas comuns de premiação incluíam privilégios na sala de aula, como escolher uma atividade ou ter mais tempo de diversão. A professora Christine Dewart, que durante nove anos deu aula para crianças de 6 anos na Califórnia, diz que, quando estudava desenvolvimento infantil na universidade, havia uma ênfase na importância da motivação intrínseca e em evitarem-se muitas recompensas.

Mas, no dia a dia da sala de aula, ela diz que essas recompensas são úteis para gerenciar a turma de alunos — e diz que "reconhecer o bom comportamento de um aluno ajuda outros alunos a fazerem o mesmo". Dewart cita o caso de um estudante que sofria com problemas de ansiedade e agressividade.

"Eu não queria destacá-lo por seu comportamento, então bolei um plano com recompensas.

Para cada 15 minutos que ele conseguia se controlar, ele ganhava um minuto de tempo livre para usar depois", conta.

Os 15 minutos mais tarde viraram 30 minutos até que ele conseguisse se manter calmo e atento durante a aula inteira — em um processo estimulado pela recompensa. Criança aprendendo curiosidade estudando Joseph Rosales / Unsplash Dá para estimular a motivação intrínseca? Se educar crianças é, também, um complexo mix de nutrir sua curiosidade natural e recompensar pelas tarefas menos atrativas, como fazer com que a tarefa em si seja a recompensa? Sarah McGeown, especialista em psicologia do desenvolvimento na Universidade de Edimburgo (Escócia), afirma que há coisas que pais e professores podem fazer para estimular a motivação intrínseca das crianças.

Um exemplo é a leitura recreativa, que favorece a motivação para que elas leiam mais tarde na vida. Ela lembra que é importante dar às crianças livros que estejam adequados a seu nível de leitura, bem como mostrar aos estudantes que eles são leitores mesmo que prefiram ler quadrinhos ou revistas, em vez de romances.

"Trata-se de ampliar o conceito de o que significa ser um leitor, para que mais crianças e adolescentes se autoidentifiquem como leitores", afirma McGeown.

"É preciso também ajudar as crianças a encontrar gêneros ou autores de que eles gostem." Guay acredita que é essencial apoiar as crianças de modo que elas sintam que têm escolhas e que estão fazendo coisas por sua livre vontade.

"Em vez de focar nas recompensas, foque na qualidade da relação com os estudantes", ele sugere.

"Isso significa ouvir os estudantes e até mesmo validar sentimentos negativos, que são normais." Na prática, isso significa lidar com os sentimentos negativos que determinada tarefa pode despertar, e explicar aos alunos por que ela é importante, mesmo que não seja divertida.

"Estudantes que descobrem que aprender é importante, mesmo que eles não gostem, vão desenvolver o mesmo tipo de desempenho positivo do que os estudantes com alta motivação intrínseca." Dar feedback aos alunos é melhor do que dar notas? E o que todo esse debate diz a respeito das notas, que provavelmente são a principal motivação extrínseca dos estudantes? Tanto Guay quanto McGeown dizem que seria melhor que se focassem menos as notas, e mais o esforço dos alunos durante o processo em si.

Alguns professores, porém, vão além. Aaron Blackwelder, professor de inglês no ensino médio dos Estados Unidos, ajudou a fundar, três anos atrás, o grupo de Facebook chamado "Teachers Going Gradeless" (em tradução livre, "professores que querem se livrar das notas").

O grupo, que começou com algumas centenas de professores, hoje tem 5 mil inscritos. Blackwelder se inspirou em uma série de estudos dos anos 1980, em que alunos de 10 a 12 anos podiam receber notas, feedback e notas, ou apenas feedback.

O interesse e o desempenho eram mais altos entre os estudantes que receberam apenas feedback, ao mesmo tempo em que notas ou a combinação de notas e feedback minavam seu interesse e sua performance, segundo esses estudos. Em vez de dar notas, Blackwelder entrega aos alunos uma lista de habilidades que eles precisam dominar e opta por um modelo de feedback a cada atividade dada.

Alguns professores veem esse modelo com ceticismo, mas ele diz que tem funcionado.

Embora sempre haja alunos que não se engajam, eles se mantêm em número reduzido, diz o professor, enquanto o número de alunos engajados aumenta "astronomicamente". "Eles confiam que eu vou lhes dar um retorno construtivo, porque as minhas ações não são vistas por eles como punitivas", argumenta.

"Os estudantes também confiam uns nos outros, porque não há uma competição para ganhar mais pontos ou a nota mais alta da sala.

Em vez disso, eles se apoiam nas habilidades uns dos outros para serem bem-sucedidos." Ainda assim, Blackwelder é obrigado pelo sistema educacional a dar uma nota para cada aluno ao fim do semestre.

E Adam Tyner, diretor-associado de pesquisas do centro de estudos educacionais Thomas B.

Fordham Institute, afirma que as notas têm, de fato, um propósito prático. "O maior benefício de usar notas é que elas condensam a performance em um único valor que pais e alunos conseguem entender.

Os professores podem incluir tanto o desempenho acadêmico como o comportamento no dia a dia dentro das notas, o que significa que eles conseguem, teoricamente, capturar não só se os estudantes aprenderam a matéria, mas também habilidades não cognitivas, como quão bem os estudantes cooperam entre si", diz Adam Tyner, diretor-associado de pesquisas . E o fato de que professores que adotam o modelo de feedback ainda precisam dar uma nota final a seus alunos evidencia uma realidade social: a de que, à medida que crescemos e entramos no mercado de trabalho, a motivação extrínseca — geralmente na forma de salários — terá um papel maior nas nossas vidas. O papel das recompensas Isso pode explicar, ao menos parcialmente, por que estudos mostram que, para estudantes mais velhos, a motivação extrínseca pode estimular o desempenho. Estudantes realizam as provas do primeiro dia da segunda fase da Fuvest na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), na Cidade Universitária, Zona Oeste de São Paulo, na tarde deste domingo (5) Hélvio Romero/Estadão Conteúdo Adam Tyner cita um programa americano de preparação para a universidade, College Readiness, que alia educação avançada para estudantes do ensino médio com incentivos financeiros para estudantes e professores bem-sucedidos.

"Uma avaliação rigorosa feita pelo economista Kirabo Jackson, da Universidade Northwestern, identificou que o programa aumenta a frequência na universidade em 4,2 pontos percentuais, ao mesmo tempo em que aumenta a preparação para a universidade e o desempenho de longo prazo da força de trabalho", diz. "Alguns efeitos em subgrupos foram de cair o queixo.

Estudantes hispânicos sentiram um ganho de 11% na sua renda quando expostos ao programa de incentivo." Tyner acrescenta que, embora motivações extrínsecas possam minar altas motivações intrínsecas já existentes, nem sempre é esse o caso.

Ele diz que, para começo de conversa, nem sempre as crianças são tão motivadas assim. "Um ponto destacado por pesquisadores é que motivações extrínsecas podem ser perigosas quando a motivação intrínseca já é muito alta, e os novos incentivos reformulam a experiência como algo pelo qual você é pago, em vez de fazer por diversão", ele diz.

"Sou cético de que, na maioria das tarefas de adolescentes, sobretudo em matérias difíceis e técnicas como matemática, haja muita motivação intrínseca que devemos nos preocupar em minar." E as duas motivações podem apoiar-se mutuamente.

"Existe o mito de que a motivação intrínseca e a extrínseca são parte de uma espécie de competição de soma zero.

Se um motivador extrínseco faz o aluno aprender, e aprender é empoderante, então o motivador extrínseco pode indiretamente empoderar estudantes." VÍDEOS: Confira vídeos sobre educação Mitos & Fatos: Primeira infância 'E-Tech': escolas usam tecnologias digitais para ensinar matemática Crianças aprendem a ser empreendedoras em escolas públicas de Caieiras Alunos aprendem ciência espacial brincando em escola no Guará